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15.1.18
15.10.17
13.10.17
11.8.17
Alice Moderno
11 de agosto de 2017 – Alice Moderno Presente
“Caridade não é apenas a que se exerce de homem para homem: é a que abrange todos os seres da Criação, visto que a sua qualidade de inferiores não lhes tira o direito aos mesmos sentimentos de piedade e de justiça que prodigalizamos aos nossos semelhantes” (Alice Moderno)
Açoriana pelo coração, Alice Moderno nasceu em Paris, a 11 de agosto de 1867, e viveu primeiro na Terceira e depois em São Miguel, onde faleceu a 20 de fevereiro de 1946.
Para além da sua atividade de jornalista, escritora, agricultora e comerciante, Alice Moderno foi uma mulher que pugnou pelos seus ideais republicanos e feministas, sendo uma defensora da natureza e amiga dos animais.
Cento e cinquenta anos depois do seu nascimento não esquecemos a sua luta que ainda hoje faz todo o sentido e não foi em vão, pois a sua obra ainda hoje é reconhecida e o seu labor serve de inspiração a quem hoje continua a trabalhar para uns Açores melhores para todos.
Não esquecemos a sua desilusão face às promessas não cumpridas pelos republicanos na Primeira República, não esquecemos que não se iludiu com a ditadura do Estado Novo e não podemos ignorar a hipocrisia dos políticos surgidos após o 25 de abril de 1974 que lhe concederam, em 2014, a título póstumo, a insígnia autonómica de mérito cívico mas que não respeitaram o definido no seu testamento. Com efeito, no dia 31 de janeiro de 1946, vinte dias antes de falecer Alice Moderno, em testamento, deixou alguns bens, à Junta Geral Autónoma do Distrito de Ponta Delgada, com a condição desta, no prazo de dois anos, criar um hospital para animais.
O Estado Novo embora não tenha cumprido na íntegra as aspirações de Alice Moderno, construiu as instalações e garantiu, nos primeiros tempos, sob a administração da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais e com a colaboração da Junta Geral, a enfermagem permanente aos pequenos animais e a consulta diária a animais de todas as espécies, através do veterinário municipal de Ponta Delgada.
A “democracia” acabou com tudo. Ainda dizem que o Estado é pessoa de bem!
Pico da Pedra, 11 de agosto de 2017
Teófilo Braga
17.4.17
A terceira morte de Alice Moderno
A terceira morte de Alice Moderno
Se é verdade que ninguém sozinho consegue alterar seja o que for, também é verdade que há pessoas que pelo seu empenho e capacidade de liderança são capazes fazer com que outros se motivem para agir em prol de ideais sejam eles quais forem.
Alice Moderno foi uma das pessoas que, para além de apoiar os seus semelhantes mais desfavorecidos, dedicou grande parte da sua vida à causa animal, através da sua dedicação à Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, de que foi uma das fundadoras e sua presidente durante décadas.
A professora doutora Conceição Vilhena, aquando do incêndio que deflagrou na Universidade dos Açores, em 1989, e destruiu o seu espólio, escreveu uma pequena nota, no Correio dos Açores, intitulada “Alice Moderno morreu pela segunda vez”, onde afirmou:
“Alice Moderno morreu hoje, pela segunda vez. Uma grande mulher: forte, inteligente, culta, trabalhadora, bondosa. Que a casa do Gaiato de S. Miguel, comprada com o seu dinheiro, a não esqueça. Que todos aqueles que condenam a crueldade para com os animais, continuem a sua obra a favor dos mais fracos. Que todas as mulheres lhe prestem homenagem, conservando-a bem viva na sua memória.”
A terceira morte de Alice Moderno, esta a ocorrer todos os dias. Hoje a casa do Gaiato, nas Capelas já deu lugar a outro projeto, o Hospital Alice Moderno também já desapareceu e durante muito tempo não serviu para os fins destinados por Alice Moderno no seu testamento, a Assembleia Legislativa Regional depois de lhe prestar homenagem aprovou uma lei que, por um lado reconhece que o abate dos animais nos canis não é o método adequado para o seu controlo mas, por outro lado, adia a entrada em vigor para 2022.
Penso que este prazo dilatado não faz qualquer sentido se as entidades governamentais e as autarquias começassem a trabalhar a sério em campanhas de sensibilização e de esterilização de animais ditos de companhia.
Além disso, uma Região que apregoa ser pioneira na implementação de várias medidas não pode alegar que não é possível acabar com os abates sistemáticos quando a nível nacional aqueles serão proibidos definitivamente a partir de 2018.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31208, 18 de abril de 2017, p.17)
11.10.16
As primeiras associações de Proteção dos Animais
As primeiras associações de Proteção dos Animais
A primeira associação criada em Portugal com o fim de defender da malvadez humana “os pobres seres, zoologicamente a nós inferiores” terá sido criada por “um conjunto de cidadãos portugueses e ingleses”, em Lisboa, no ano de 1875, com a designação de “Sociedade Protetora dos Animais”.
Três anos mais tarde, em 1878, surgiu na cidade do Porto uma associação congénere com a denominação de Sociedade Protetora dos Animais do Porto (SPAP), a qual durante alguns anos foi dirigida por um açoriano.
De acordo com Alice Moderno, a Sociedade Protetora dos Animais do Porto, presidida pelo micaelense Dr. José Nunes da Ponte, em 1913, que realizava um trabalho, “que tanto honra e levanta o nível moral da cidade onde se expande e progride”, devia servir de incentivo e exemplo aos micaelenses que dois anos antes haviam tomado nas suas mãos a criação da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais.
No ano referido, a SPAP disponha de uma receita de 1505 escudos, na moeda portuguesa, ou sejam 1881 escudos na moeda insulana, o que lhe permitia “proteger eficazmente os animais, mantendo fontenários, distribuindo prémios, custeando um posto veterinário, tendo empregados remunerados, escritório com telefone, que prontamente comunica com todos os pontos da cidade, etc. etc.”
Nos Açores, embora a ideia da criação de uma associação de proteção dos animais seja mais antiga e as primeiras reuniões tenham ocorrido em 1908, a primeira organização que se formou foi a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais (SMPA), com estatutos elaborados tendo por base os da Sociedade Protetora dos Animais, de Lisboa.
Legalizada a SMPA, a 13 de Setembro de 1911, foram seus fundadores: Caetano Moniz de Vasconcelos (governador civil), Alfredo da Câmara, Amâncio Rocha, Augusto da Silva Moreira, Fernando de Alcântara, Francisco Soares Silva, José Inácio de Sousa, Joviano Lopes, Manuel Botelho de Sousa, Manuel Resende Carreiro, Marquês de Jácome Correia, Miguel de Sousa Alvim, Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa.
No ano em que foram aprovados os estatutos da SMPA, surgiu na ilha Terceira, com o fim de “proteger dos maus tratos todos os animais não considerados daninhos… e animar o exercício da caridade para com os animais, estabelecendo para isso prémios e recompensas sempre que permitam os recursos da sociedade”, a SPAAH - Sociedade Protetora dos Animais de Angra do Heroísmo.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31052, 11 de outubro de 2016, p.16)
18.1.16
O Correio dos Açores e os poetas zoófilos
O Correio dos Açores e os poetas zoófilos
Nas pesquisas que temos vindo a efetuar sobre o tema da proteção dos animais, encontrámos no jornal Correio dos Açores em 1933 e em 1935 uma rubrica intitulada “Poetas Zoófilos” que poderá ter sido coordenada por Alice Moderno.
Entre os poetas que foram selecionados temos Gomes Leal, autor de “O bicho da seda e o verme”, Paulino de Oliveira que escreveu “As olaias e as cigarras”, Espínola de Mendonça autor de “A uma criança que maltratou um cão”, Louis Pergaud que escreveu “Les gardiens”, Luís Cebola, autor de “Dois amigos” e de “Burro velho”, Teixeira de Pacoaes autor de “Buda” e Alice Moderno que escreveu três sonetos com o tema “Fiel companheiro” e outro sobre “A Toutinegra”.
Dos autores referidos dois são açorianos, Espínola de Mendonça, natural de Ponta Delgada, e Alice Moderno, natural de Paris e que viveu primeiro na ilha Terceira e depois em São Miguel.
Termino esta nota transcrevendo o poema de Espínola de Mendonça publicado neste mesmo jornal a 9 de julho de 1933.
A Uma criança que maltrata um cão
Não maltrates o cão. Tem caridade
com o pobre animal.
Ele é tão nosso amigo e, na amizade,
ninguém é mais leal.
Se o malvado lhe inflige algum castigo,
a essa ingratidão
quantas vezes responde o cão amigo,
vindo beijar-lhe a mão!
E essa amizade pela vida fora
é sempre firme, pura.
E os amigos volúveis vão-se embora
nas horas de amargura.
Ele é tão nosso amigo! E a humanidade
nem sempre é como o cão!
Dispensa-lhe carinho, e, por piedade,
Não o maltrates, não.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30836, 19 de janeiro de 2016, p.13)
23.11.15
Divergências na SMPA
Divergências na SMPA sobre a função de uma associação protetora de animais
A nota de hoje surge dada a necessidade de esclarecer que as associações protetoras dos animais agrupam pessoas com opiniões muito diversas sobre a vida em sociedade e mesmo sobre a proteção animal pelo que no seio delas a diversidade deve ser respeitada e ninguém deve submeter-se a qualquer pensamento único. Além disso, as associações não podem transformar-se em seitas, seguindo putativos “mestres”, devendo, pelo contrário, funcionar com o máximo de democraticidade interna, o que no mínimo exige a realização de assembleias gerais ordinárias anuais e extraordinárias sempre que a vida interna assim o exija.
Para além da democraticidade interna que implica a prestação de contas a todos os que de uma maneira ou outra contribuem para a manutenção das associações, não vejo qualquer problema no surgimento de mais associações ou grupos de afinidade já que assim será mais rico e diversificado o contributo para o combate para uma sociedade mais humana.
A questão sobre o que deve fazer uma associação e as divergentes respostas à mesma, não é de agora, tendo também surgido na SMPA-Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, onde apareceram duas opiniões diferentes, mas não incompatíveis, a de Alice Moderno e a do Marquês de Jácome Correia.
O senhor Marquês de Jácome Correia, tanto em alguns textos publicados no Correio dos Açores como numa reunião da direção da SMPA, defendeu que a proteção dos animais devia incidir na divulgação de práticas de preceitos higiénicos e sanitários, auxiliando assim as autoridades sanitárias locais.
Alice Moderno discordou, tendo afirmado que, embora não desmerecendo a iniciativa do Sr. Marquês de Jácome Correia, cujas qualidades ela por diversas vezes já tinha elogiado, a orientação da sociedade não poderia ser alterada sem que houvesse primeiro uma alteração dos seus estatutos.
E qual era, para Alice Moderno, a orientação da SMPA?
“Estabelecer um Posto Veterinário, para início do qual se encontram depositados 2000$00 escudos na Caixa Económica da Associação de Socorros Mútuos de Ponta Delgada, evitar que os animais domésticos sejam martirizados, desenvolver no público o sentimento da piedade para com os seres que não podem apelar para as leis que os protegem, porque não sabem falar nem escrever, deve, ser segundo o meu critério e de vários membros da Sociedade com quem tenho trocado impressões o fim da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, como é, aliás, a finalidade de todas as associações congéneres.
Apesar de ter sido escrito em 1937, continua atual.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30792, 24 de novembro de 2015, p.14)
30.9.15
Exposição
Notas Zoófilas (9)
Alice Moderno em exposição
“ Dos seus sentimentos de bondade fala eloquentemente a sua ação não só dentro da benemérita Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, mas também na imprensa, onde frequentemente a pena elegante da srª D. Alice Moderno firmava artigos na defesa vigorosa e inteligente daqueles seres, amigos e companheiros do homem que este, na sua ignorância e ingratidão, tantas vezes maltrata” (João Anglin)
No passado dia 25 de setembro, na sala de exposições da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, foi inaugurada a exposição Alice Moderno (1867-1946): cidadania e intervenção.
A exposição, que surgiu na sequência de uma sugestão do Coletivo Alice Moderno, é uma iniciativa da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta, tendo sido realizada por Ana Cristina Pereira, Iva Matos e Rute Gregório, sendo esta última também responsável pela sua coordenação.
Conhecida pela sua dedicação à causa da defesa animal, Alice Moderno foi uma das fundadoras, em 1911, da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais e sua presidente e principal dinamizadora, desde 1914 até à data da sua morte, em 1946.
No seu labor em defesa dos animais, Alice Moderno não fazia distinções. Com efeito, para além de solicitar às autoridades a criação de legislação que proibisse determinadas práticas que causavam sofrimento e que cuidassem ou modificassem o piso das ruas para facilitar o trabalho dos animais de tiro, denunciou o uso e abuso de aguilhadas, a sobrecarga que vitimava principalmente bois e cavalos, o uso de cabras e ovelhas para puxar carroças, que acabou por ser proibido por lei, a venda por farmácias de estricnina que era usada para matar os cães abandonados, os maus tratos que sofriam os bovinos nas festas do Espírito Santo, o sofrimento dos touros e dos cavalos nas touradas, que ela abominava, e a morte à paulada dos ouriços-cacheiros por parte sobretudo dos rapazes mas também por adultos nas freguesias rurais que ela para os salvar comprava para depois soltar no quintal.
Mas, Alice Moderno não se dedicou apenas à causa animal. Ela, que para sobreviver teve de trabalhar arduamente, pois não herdou nenhuma fortuna, também abraçou outras causas, que estão mencionadas nos vários painéis que integram a exposição, a saber: a instrução/educação, as letras, onde se inclui a poesia, o teatro e o romance, o jornalismo, de que se destaca a fundação, direção e redação do jornal “A Folha”, onde ela dá voz a diversas correntes de pensamento inovadoras e progressistas, o feminismo, onde, para além da luta pela emancipação da mulher, defende a participação cívica da mesma na vida social, a participação política que a desencantou já que muitas das promessas da República não passaram disso mesmo e, por último, o apoio aos mais carenciados que ela, contrária à “caridadezinha”, sempre o fez.
A exposição, que merece a visita de todos os interessados em conhecer a vida e a obra de uma mulher que lutou incansavelmente por uns Açores melhores para todos os seus habitantes, humanos ou não, estará aberta ao público até ao dia 16 de abril de 2016.
Teófilo Braga
10.6.15
A imprensa socialista, a defesa dos animais e Alice Moderno
A imprensa socialista, a defesa dos animais e Alice Moderno
Na Primeira República a divulgação das ideias socialistas, na ilha de São Miguel, foi feita por três jornais ligados ao Partido Socialista Português: “O Proletário”, órgão da Federação Operária e do Operariado em geral, “O Protesto”, órgão e propriedade do Centro Socialista “Antero de Quental” e “O Protesto do Povo”, bimensário socialista que teve como redator principal, editor e proprietário Manuel Augusto César, cujo nome também está associado aos outros dois jornais mencionados, como administrador e diretor, respetivamente.
O Proletário, que começou a ser composto e impresso na tipografia de Ruy Moraes, a partir do número 13 passou a ser feito na Tipografia Alice Moderno, localizada na rua da Fonte Velha, 34 e 36, no seu número 23, relativo ao dia 11 de Outubro de 1913, anuncia a abertura, em Ponta Delgada, de “um curso nocturno, regido pela srª D. Alice Moderno, nossa ilustre colega d’A Folha”. Na mesma nota, o jornal chama a atenção dos operários micaelenses para a vantagem do referido curso ocorrer em horário noturno que é o mais adequado para quem trabalha todo o dia já que só à noite aqueles poderão dedicar-se a aprender as primeiras letras.
No seu número 27, de 7 de dezembro de 1913, O Proletário agradece a Alice Moderno a oferta do seu livro “Na Véspera da Incursão”, peça em um ato, dedicada pela autora ao “Senhor Doutor António Joaquim de Sousa Júnior, Sumidade cientifica consagrada nos centros mundiais, açoriano dos que mais alto levantam, no continente da República, o nome do Arquipélago, 1º Ministro da Instrução Pública”. Sobre aquela obra de Alice Moderno o autor do texto, de forma delicada, escusa-se a opinar, limitando-se a escrever o seguinte: “A nossa falta de competência inibe-nos de falar no seu conteúdo, restando-nos apenas dizer o seguinte:- lemos e gostamos.”
A 31 de Agosto de 1918, assinado por FARPA, o Protesto publica um texto onde é exposta a situação dos cães em Ponta Delgada. Segundo o autor do mesmo, “os quadros lastimosos de verdadeira selvageria e crime moral por parte de quem compete olhar pelos animais…irracionais, compreenda-se, são os de inúmeros cães, verdadeiras matilhas sem coleira e sem dono, passearem pelas ruas mais centrais e frequentadas da nossa cidade, caindo aqui e ali com os ataques próprios da tal doença «Esgana» ou então, tossindo n’uma tosse arrepiadora e cavernosa que lhes desconjunta todo o corpo esquelético, sujo e repelente”.
No mesmo texto, o autor junta-se a todas as vozes que em vários locais do país e também em São Miguel têm levantado a sua voz e mostrado a sua indignação face ao bárbaro tratamento dado aos animais de tiro. Segundo ele, também, é “lastimoso e impróprio de nós, gente civilizada, e vem a ser o de fazerem puxar carroças, carros, carrinhos e os carrões que fazem o transporte diário entre algumas vilas e aldeias desta ilha, animais chagados e mal alimentados, com o agravo de lhes porem em cima nos arreios que não são arreios nem são coisa que com arreios se pareçam, antes são instrumentos inquisitoriais, bárbaros e primitivos, que martirizam, inutilizam e chagam todo o corpo d’esses pobres animais que têm a infelicidade de cair na mãos d’uns brutos mais bestas do que as próprias bestas que os acarretam”.
Por último o autor apela, não só ao “coração de mulher” de Alice Moderno mas também pela posição de destaque na Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, para que intervenha e “que as autoridades sanitárias, administrativas e policiais, fiquem no descanso eterno de não vale a pena ralar! Para vergonha d’elas e vergonha nossa”.
A 30 de setembro de 1918, O Protesto, através de um curto texto intitulado “Os Aguilhões”, depois de recordar que numa carta publicada no Diário dos Açores alguém pediu que fossem tomadas medidas contra o uso de aguilhões que, apesar de proibidos, eram usados “quotidianamente na inglória, brutal e selvática tarefa de espicaçar os pobres animais, que a maior parte das vezes, estão mortos de cansaço e de fome e que por tal motivo não podem trabalhar, nem exceder as suas forças”, mostra a sua repulsa escrevendo: “Quando presenciamos estes casos diários, dá-nos a gana de desatrelar os animais, e pespegar com o condutor nos varais, arreia-lo e espicaça-lo também, por nossa vez, até que ele gritasse e provasse o atroz sofrimento que dá aos animais. Talvez, então servisse de emenda a todos os tratantes, seus émulos e imitadores”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30650, 10 de junho de 2015, p.2015)
Na Primeira República a divulgação das ideias socialistas, na ilha de São Miguel, foi feita por três jornais ligados ao Partido Socialista Português: “O Proletário”, órgão da Federação Operária e do Operariado em geral, “O Protesto”, órgão e propriedade do Centro Socialista “Antero de Quental” e “O Protesto do Povo”, bimensário socialista que teve como redator principal, editor e proprietário Manuel Augusto César, cujo nome também está associado aos outros dois jornais mencionados, como administrador e diretor, respetivamente.
O Proletário, que começou a ser composto e impresso na tipografia de Ruy Moraes, a partir do número 13 passou a ser feito na Tipografia Alice Moderno, localizada na rua da Fonte Velha, 34 e 36, no seu número 23, relativo ao dia 11 de Outubro de 1913, anuncia a abertura, em Ponta Delgada, de “um curso nocturno, regido pela srª D. Alice Moderno, nossa ilustre colega d’A Folha”. Na mesma nota, o jornal chama a atenção dos operários micaelenses para a vantagem do referido curso ocorrer em horário noturno que é o mais adequado para quem trabalha todo o dia já que só à noite aqueles poderão dedicar-se a aprender as primeiras letras.
No seu número 27, de 7 de dezembro de 1913, O Proletário agradece a Alice Moderno a oferta do seu livro “Na Véspera da Incursão”, peça em um ato, dedicada pela autora ao “Senhor Doutor António Joaquim de Sousa Júnior, Sumidade cientifica consagrada nos centros mundiais, açoriano dos que mais alto levantam, no continente da República, o nome do Arquipélago, 1º Ministro da Instrução Pública”. Sobre aquela obra de Alice Moderno o autor do texto, de forma delicada, escusa-se a opinar, limitando-se a escrever o seguinte: “A nossa falta de competência inibe-nos de falar no seu conteúdo, restando-nos apenas dizer o seguinte:- lemos e gostamos.”
A 31 de Agosto de 1918, assinado por FARPA, o Protesto publica um texto onde é exposta a situação dos cães em Ponta Delgada. Segundo o autor do mesmo, “os quadros lastimosos de verdadeira selvageria e crime moral por parte de quem compete olhar pelos animais…irracionais, compreenda-se, são os de inúmeros cães, verdadeiras matilhas sem coleira e sem dono, passearem pelas ruas mais centrais e frequentadas da nossa cidade, caindo aqui e ali com os ataques próprios da tal doença «Esgana» ou então, tossindo n’uma tosse arrepiadora e cavernosa que lhes desconjunta todo o corpo esquelético, sujo e repelente”.
No mesmo texto, o autor junta-se a todas as vozes que em vários locais do país e também em São Miguel têm levantado a sua voz e mostrado a sua indignação face ao bárbaro tratamento dado aos animais de tiro. Segundo ele, também, é “lastimoso e impróprio de nós, gente civilizada, e vem a ser o de fazerem puxar carroças, carros, carrinhos e os carrões que fazem o transporte diário entre algumas vilas e aldeias desta ilha, animais chagados e mal alimentados, com o agravo de lhes porem em cima nos arreios que não são arreios nem são coisa que com arreios se pareçam, antes são instrumentos inquisitoriais, bárbaros e primitivos, que martirizam, inutilizam e chagam todo o corpo d’esses pobres animais que têm a infelicidade de cair na mãos d’uns brutos mais bestas do que as próprias bestas que os acarretam”.
Por último o autor apela, não só ao “coração de mulher” de Alice Moderno mas também pela posição de destaque na Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, para que intervenha e “que as autoridades sanitárias, administrativas e policiais, fiquem no descanso eterno de não vale a pena ralar! Para vergonha d’elas e vergonha nossa”.
A 30 de setembro de 1918, O Protesto, através de um curto texto intitulado “Os Aguilhões”, depois de recordar que numa carta publicada no Diário dos Açores alguém pediu que fossem tomadas medidas contra o uso de aguilhões que, apesar de proibidos, eram usados “quotidianamente na inglória, brutal e selvática tarefa de espicaçar os pobres animais, que a maior parte das vezes, estão mortos de cansaço e de fome e que por tal motivo não podem trabalhar, nem exceder as suas forças”, mostra a sua repulsa escrevendo: “Quando presenciamos estes casos diários, dá-nos a gana de desatrelar os animais, e pespegar com o condutor nos varais, arreia-lo e espicaça-lo também, por nossa vez, até que ele gritasse e provasse o atroz sofrimento que dá aos animais. Talvez, então servisse de emenda a todos os tratantes, seus émulos e imitadores”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30650, 10 de junho de 2015, p.2015)
8.1.15
5.1.15
Postos veterinários
Em ditadura era possível uma associação manter um posto veterinário onde havia descontos de 50% para sócios e serviços grátis para pobres. Em democracia por que não se consegue isto?
Correio dos Açores, 10 de Junho de 1933
29.12.14
3.12.14
11.11.14
Aprendendo
Aprendendo com Alice Moderno
Muitos cidadãos, a título individual, e as associações animalistas desempenham um papel fundamental, sobretudo na recolha de animais domésticos abandonados e na procura de adotantes, na denúncia de maus tratos, na educação dos cidadãos e no salvamento de animais que são vítimas da política de abate que é prática na maioria dos canis.
Durante muitos anos, a proteção aos animais domésticos esteve, em São Miguel, a cargo da SMPA-Sociedade Micaelense Protetora dos Animais que sob a direção de Alice Moderno e a colaboração de vários zoófilos micaelenses, de que destacamos a professora Maria Evelina de Sousa, o braço direito de Alice Moderno, Alfredo da Câmara, que sempre disponibilizou o salão dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada para a realização de diversas reuniões e Aires Jácome Correia (marquês de Jácome Correia) que foi presidente da Assembleia Geral, durante vários anos, e o mais generoso dos sócios contribuintes.
Apesar de grande parte da atividade da SMPA, sob a presidência de Alice Moderno, ter decorrido durante um regime não democrático, o Estado Novo, os dirigentes daquela associação tinham o cuidado de dar a conhecer publicamente as suas atividades, apelar à participação e divulgar as contas da mesma, através dos jornais.
Hoje, em regime democrático, pelo menos formalmente, com mais e melhores meios de comunicação, as associações parecem ignorar que a participação dos cidadãos seria maior se sentissem que os seus donativos estão a ser bem usados, se conhecessem melhor o que fazem as associações e que dificuldades enfrentam.
Para além do referido, parece que as associações (algumas ou a maioria?) vivem na semiclandestinidade, de tal modo que raramente ou nunca, nem mesmo a solicitação dos órgãos de soberania, emitem um parecer sobre assuntos que à defesa dos animais dizem respeito, raras vezes tomam a iniciativa de fazer denúncias publicamente, nunca (ou quase nunca) promoveram uma petição, não divulgam a composição dos seus órgãos sociais, não divulgam a realização das assembleias gerais ou não apresentam contas tal como está previsto nos estatutos de todas elas.
Outra batalha ganha pela SMPA foi a criação de um posto veterinário em Ponta Delgada que embora público funcionava com a colaboração da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais. Hoje, apesar de uma recomendação da Assembleia Legislativa Regional e das declarações favoráveis por parte do secretário da tutela, parece que alguns interesses mais alto se levantam e nada se faz para que se concretize o sonho de Alice Moderno, isto é, que a ilha de São Miguel tenha um hospital veterinário público ou gerido em parceria ou totalmente por uma ou mais associações de proteção dos animais.
Não querendo intervir na vida interna das associações, esta devia ser uma luta contínua que devia figurar na agenda de todas elas. A concretização deste sonho, para além ser a verdadeira homenagem a Alice Moderno, poderia abrir o caminho a uma correta forma de tratar os animais, não como coisas mas como seres que sentem.
Pensamos que, muitas vezes, as pessoas que são passivas por natureza ou por deseducação, ainda se retraem mais quando se trata de defender os animais. Com efeito, para além de poderem ser alvo de chacota, muitas vezes são acusadas de darem mais valor aos animais ditos irracionais do que aos seus semelhantes.
A propósito do que está escrito no parágrafo anterior, Alice Moderno num texto publicado em 1935 cita o escritor Francis de Miomandre que escreveu: “Não há graduação na bondade. A pessoa que ama os animais não é cruel para com o seu semelhante. E, muito ao contrário, aquele que defende a sua sensibilidade contra as tentações da zoofilia, não passa de um ser egoísta e explorador da espécie humana”.
Estamos a ficar cansados de ouvir alguns (ir) responsáveis que, face às reaiis ou virtuais dificuldades por que estão a passar as instituições que gerem, lamentarem-se de não fazer nada pelos animais pois, dizem eles, primeiro estão as pessoas. Esquecem-se eles de dizer que há sempre dinheiro para aquilo que querem: para festas e roqueiras, para touradas e música pimba, para contratação de amigos ou correligionários, etc..
Por último, também fingem ignorar que, se há pessoas que estão a passar mal, tal é devido às políticas ruinosas que foram governando este país, a todos os níveis, e que eles também contribuíram para tal. Em suma eles criaram a pobreza e os pobres para agora poderem dar-lhes uma esmola, chame-se a esta rendimento social de inserção ou outra coisa qualquer.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores nº 30484 de 12 de Novembro de 2014)
Muitos cidadãos, a título individual, e as associações animalistas desempenham um papel fundamental, sobretudo na recolha de animais domésticos abandonados e na procura de adotantes, na denúncia de maus tratos, na educação dos cidadãos e no salvamento de animais que são vítimas da política de abate que é prática na maioria dos canis.
Durante muitos anos, a proteção aos animais domésticos esteve, em São Miguel, a cargo da SMPA-Sociedade Micaelense Protetora dos Animais que sob a direção de Alice Moderno e a colaboração de vários zoófilos micaelenses, de que destacamos a professora Maria Evelina de Sousa, o braço direito de Alice Moderno, Alfredo da Câmara, que sempre disponibilizou o salão dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada para a realização de diversas reuniões e Aires Jácome Correia (marquês de Jácome Correia) que foi presidente da Assembleia Geral, durante vários anos, e o mais generoso dos sócios contribuintes.
Apesar de grande parte da atividade da SMPA, sob a presidência de Alice Moderno, ter decorrido durante um regime não democrático, o Estado Novo, os dirigentes daquela associação tinham o cuidado de dar a conhecer publicamente as suas atividades, apelar à participação e divulgar as contas da mesma, através dos jornais.
Hoje, em regime democrático, pelo menos formalmente, com mais e melhores meios de comunicação, as associações parecem ignorar que a participação dos cidadãos seria maior se sentissem que os seus donativos estão a ser bem usados, se conhecessem melhor o que fazem as associações e que dificuldades enfrentam.
Para além do referido, parece que as associações (algumas ou a maioria?) vivem na semiclandestinidade, de tal modo que raramente ou nunca, nem mesmo a solicitação dos órgãos de soberania, emitem um parecer sobre assuntos que à defesa dos animais dizem respeito, raras vezes tomam a iniciativa de fazer denúncias publicamente, nunca (ou quase nunca) promoveram uma petição, não divulgam a composição dos seus órgãos sociais, não divulgam a realização das assembleias gerais ou não apresentam contas tal como está previsto nos estatutos de todas elas.
Outra batalha ganha pela SMPA foi a criação de um posto veterinário em Ponta Delgada que embora público funcionava com a colaboração da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais. Hoje, apesar de uma recomendação da Assembleia Legislativa Regional e das declarações favoráveis por parte do secretário da tutela, parece que alguns interesses mais alto se levantam e nada se faz para que se concretize o sonho de Alice Moderno, isto é, que a ilha de São Miguel tenha um hospital veterinário público ou gerido em parceria ou totalmente por uma ou mais associações de proteção dos animais.
Não querendo intervir na vida interna das associações, esta devia ser uma luta contínua que devia figurar na agenda de todas elas. A concretização deste sonho, para além ser a verdadeira homenagem a Alice Moderno, poderia abrir o caminho a uma correta forma de tratar os animais, não como coisas mas como seres que sentem.
Pensamos que, muitas vezes, as pessoas que são passivas por natureza ou por deseducação, ainda se retraem mais quando se trata de defender os animais. Com efeito, para além de poderem ser alvo de chacota, muitas vezes são acusadas de darem mais valor aos animais ditos irracionais do que aos seus semelhantes.
A propósito do que está escrito no parágrafo anterior, Alice Moderno num texto publicado em 1935 cita o escritor Francis de Miomandre que escreveu: “Não há graduação na bondade. A pessoa que ama os animais não é cruel para com o seu semelhante. E, muito ao contrário, aquele que defende a sua sensibilidade contra as tentações da zoofilia, não passa de um ser egoísta e explorador da espécie humana”.
Estamos a ficar cansados de ouvir alguns (ir) responsáveis que, face às reaiis ou virtuais dificuldades por que estão a passar as instituições que gerem, lamentarem-se de não fazer nada pelos animais pois, dizem eles, primeiro estão as pessoas. Esquecem-se eles de dizer que há sempre dinheiro para aquilo que querem: para festas e roqueiras, para touradas e música pimba, para contratação de amigos ou correligionários, etc..
Por último, também fingem ignorar que, se há pessoas que estão a passar mal, tal é devido às políticas ruinosas que foram governando este país, a todos os níveis, e que eles também contribuíram para tal. Em suma eles criaram a pobreza e os pobres para agora poderem dar-lhes uma esmola, chame-se a esta rendimento social de inserção ou outra coisa qualquer.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores nº 30484 de 12 de Novembro de 2014)
27.8.14
Ouriço-cacheiro
O Correio dos Açores, Alice Moderno e os ouriços-cacheiros
Quem viaja pelas estradas da ilha de São Miguel não raras as vezes encontra ouriços-cacheiros que foram atropelados pelos veículos motorizados. Nalguns casos, involuntariamente e noutros por pura maldade humana.
Sabe-se que nos Açores existe apenas um mamífero endémico, o morcego (Nyctalus azoreum), tendo os restantes sido introduzidos intencionalmente ou não pelo homem. No caso do ouriço-cacheiro, segundo o jornal Correio dos Açores de 21 de Julho de 1939, a sua introdução na ilha de São Miguel foi voluntária, a sua disseminação pela ilha é que não, pois apesar de “inofensivos e tímidos, pouco dados a afoutezas românticas” aquela só aconteceu depois de “meia dúzia” deles se terem escapado “do Relvão há cerca de 15 anos”, portanto por volta de 1914.
Se hoje há um profundo desrespeito pelos animais, o que não é de admirar já que nem os humanos se respeitam entre si, os ouriços-cacheiros nunca tiveram uma vida fácil nesta ilha do Arcanjo. Com efeito, as tolices que sobre ele ainda hoje se dizem, como por exemplo que trepam às laranjeiras para comer as laranjas, levaram que alguns agricultores os perseguissem e a rapaziada sempre que apanhava um dava-lhe morte certa.
A situação atual não é muito diferente da vivida há 75 anos, como se pode depreender deste extrato publicado no jornal mencionado: “ Nesta mansa e santa terra, onde os animais ferozes e de rapina se limitam ao bichano arisco- a que o menino puxa pela cauda- e ao milhafre – que faz uma roda por se lhe prometer uma galinha – para quem apenas está habituado a ver os representantes do grande reino animal no cinema ou nas leituras maravilhosas o aparecimento de qualquer pequeno bicharoco, de focinho desconhecido e feição estranha, é saudado com foro de sensacional ou requintes de barbaridade”.
No artigo que vimos citando e que não deixa de ser atual escrevia-se que “quási todos os micaelenses ignoram a sua existência e o benefício que representam para a agricultura” em virtude de ser “ insetívoro, pois come especialmente os bichos da terra, grilos, gafanhotos, baratas, caracóis, besouros e toda a casta de bicharada prejudicial à agricultura”.
A 18 de Outubro de 1939, o Correio dos Açores volta a abordar o assunto, mencionando que os ouriços-cacheiros continuavam “a levar uma vida amargurada” e apelava para que as pessoas deixassem “os poucos ouriços-cacheiros que se criam nos nossos campos, viver em paz, porque eles, com toda a sua fealdade e com todos os seus espinhos, na luta pela vida só nos prestam grandes serviços”.
Alice Moderno, que não se interessou apenas pelos cães, pelos gatos, pelos animais de tiro, pelos animais de produção e pelos touros e cavalos forçados a participar em espetáculos degradantes, como o eram e são as touradas, também se manifestou em defesa dos ouriços-cacheiros.
Alice Moderno, numa das suas “Notas Zoófilas”, publicadas durante vários anos no Correio dos Açores, que viu a luz do dia a 8 de Setembro de 1940, voltou a corroborar o afirmado nos textos anteriormente citados e relatou a solução que encontrou para evitar que os ouriços fossem trucidados a golpe de foice e que consistiu em fazer publicar um anúncio, no mesmo jornal, “em letras gordas”, onde mostrava o seu interesse em “ser compradora do perseguido mamífero”.
O anúncio não caiu em saco roto e pouco tempo depois apareceu-lhe em casa um indivíduo com dois ouriços-cacheiros pequenos que ela colocou no jardim da sua residência, tendo confirmado que os mesmos não comiam a fruta que ela disponibilizava mas que davam cabo das baratas que por lá apareciam.
Na nota publicada a 15 de Setembro de 1940, Alice Moderno dá conta de que três pessoas amigas estavam interessadas em possuir ouriços e se eles vinham comer à mão. A resposta foi a de que os seus dois ouriços ainda não se haviam reproduzido, que só perto da meia-noite é que subiam ao balcão para comer num prato, mas que não vinham comer à mão e que a melhor forma de os adquirir seria através da colocação de um anúncio num jornal ou importar “do continente, de onde vieram os ancestrais dos poucos que nesta ilha existem e não têm aumentado devido à guerra encarniçada que durante algum tempo lhes fizeram”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30422, 27 de Agosto de 2014)
19.8.14
19.2.14
Alice Moderno
A propósito do aniversário da morte de Alice Moderno
No próximo dia 20, do corrente mês de fevereiro, fará 68 anos que faleceu Alice Moderno, personagem ímpar que marcou a sua época e que continua a inspirar todos os que lutam por uma sociedade melhor, nomeadamente para quem se bate para que o bem-estar animal e os direitos dos animais sejam reconhecidos na prática e não passem de meras palavras para embelezar discursos de circunstância.
Um trabalho importante, talvez o de maior envergadura até ao momento, para a perpetuação da memória de Alice Moderno foi feito pela professora Doutora Maria da Conceição Vilhena que, para além de vários textos, foi autora dos livros “Alice Moderno: a mulher e a obra”, editado pela Direção Regional dos Assuntos Culturais e “Uma Mulher Pioneira” editado pelas Edições Salamandra.
Nos nossos tempos livres, temos procurado pesquisar e compilar, nos jornais de Ponta Delgada onde ela colaborou ou chegou a dirigir, como o “Correio dos Açores”, onde manteve durante muitos anos a seção “Notas Zoófilas” “A Folha”, “O Recreio das Salas”, o “Diário dos Açores” e o Académico”, os seus escritos relativos à questão animal, com vista a conhecer melhor a sua vultuosa obra, a aprender com os erros do passado e a divulgar, sobretudo junto das pessoas que hoje, nos Açores, estão a prosseguir a luta por ela abraçada durante uma parte significativa da sua vida.
Conhecendo relativamente bem a sua personalidade, tal como já esperávamos, temos encontrado textos de Alice Moderno que com ligeiras adaptações mantêm-se perfeitamente atuais. De entre os exemplos possíveis, destacamos “Animais nossos amigos…”, texto de um discurso proferido por Alice Moderno numa reunião da SMPA - Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, que foi publicado, no Correio dos Açores, a 30 de Janeiro de 1934.
No referido texto, Alice Moderno depois de mencionar que “em todos os países cultos, a proteção e assistência aos animais constitui um dever cívico, a que ninguém se exime, e pelo cumprimento do qual as leis olham cuidadosamente, rigorosamente, mesmo”, lamenta que, “em São Miguel, com sincera mágoa” pouco havia sido feito.
Sabendo-se que a SMPA foi fundada em 1911 e que uma vintena de anos depois a situação, segundo ela, estava muito longe de ser a ideal interessa-nos saber a razão?
As autoridades não colaboravam com a SMPA, as propostas da SMPA eram muito avançadas para a época, em que as dificuldades económicas de uma parte significativa da população eram enormes, ou os próprios dirigentes da sociedade pela sua apatia não foram capazes de implementar as suas ideias/propostas?
Hoje, em que uma parte crescente dos cidadãos se empenha em movimentos de solidariedade, não só para com humanos que vivem em regiões com poucos recursos naturais ou são governados por dirigentes corruptos, mas também para com quem na nossa terra foi espoliado do seu direito a ter um trabalho digno e uma remuneração justa, e onde a causa animal ganha, dia a dia, cada vez mais seguidores, é indispensável conhecer a vida e a obra de uma mulher que despendeu muitas das suas energias em várias causas humanitárias, como é a proteção dos animais, que segundo ela “sofrem muitas vezes estoicamente, sem um queixume, os maus tratos que a crueldade humana lhes inflige”.
Desafiamos as entidades oficiais a organizar um ou mais eventos que contribuam para dar a conhecer a obra de Alice Moderno, na literatura, no ensino, na luta pelos direitos das mulheres, na defesa dos animais e das plantas, às gerações que hoje a ignoram por completo.
Se nenhuma entidade oficial se mostrar disponível para tal, as associações de proteção dos animais deviam juntar esforços para o fazer, pelo menos no que diz respeito à causa que abraçaram.
Outro grande passo para perpetuar a sua memória será a luta pela concretização do grande sonho da SMPA e de Alice Moderno que era “estabelecer um Lazareto para tratamento dos animais achados quando abandonados pelo dono” e que hoje deve ser o de “criar” um moderno Hospital Veterinário “Alice Moderno”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 3023, 19 de Fevereiro de 2014, p.11)
8.1.14
Alice Moderno vai ser respeitada?
A VONTADE DE ALICE MODERNO VAI SER RESPEITADA?
1- O bem-estar animal e o controlo das populações de animais errantes
Foi com muita satisfação que recebi a notícia da aprovação, por maioria, pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores, no passado dia 10 de Dezembro, de uma resolução que visa a promoção do bem-estar animal e o controlo das populações de animais errantes.
Se estão de parabéns todos os deputados que aprovaram a resolução, bem como todas as entidades que emitiram os seus pareceres favoráveis, como o Clube dos Amigos e Defensores do Património Cultural e Natural de Santa Maria e a APA- Associação Açoriana de Proteção dos Animais, lamenta-se o silêncio, embora possa haver justificações fortes para tal, de outras associações de proteção dos animais.
Embora respeitável, já que todos têm direito à sua opinião, considero lastimável o parecer da Delegação dos Açores da Ordem dos Médicos Veterinários, pois emite opiniões sobre um texto treslido.
Não deixando de ser extremamente positiva a aprovação da resolução, tenho sérias dúvidas acerca da sua implementação já que há sempre alguém apostado em puxar para trás, em tentar impedir a evolução das sociedades.
Não vou aqui rebater os vários argumentos contra a resolução, apenas mencionei o dos custos da implementação de uma política de não abate que é recomendada por várias organizações internacionais.
Por acaso, já alguém apresentou algum estudo com os custos do abate sistemático e da incineração dos milhares de animais mortos nos canis, licenciados ou não, nas diferentes ilhas dos Açores e que nunca pararão já que sem esterilizações os animais continuarão a procriar-se?
Temos dúvidas se o farão, pois o que é chique é fomentar o consumo, o usar e deitar fora e, no caso em apreço, é comprar e oferecer animais pelas festas ou aniversários para os abandonar à primeira oportunidade.
2- Por que razão aderi à causa animal?
Há algum tempo, estou em crer que em jeito de brincadeira, alguém escreveu numa conhecida rede social que não podia contar comigo pois eu era amigo dos animais e não dos humanos.
Como não tenho que dar provas de nada e como cada um tem a liberdade de escrever o que lhe vai na alma, apenas aproveito para enumerar algumas razões que me motivam a lutar pelos direitos dos animais e que são, em síntese, as seguintes:
1- Porque ninguém sensível poderá ficar indiferente, no caso dos animais de companhia, à barbaridade que consiste no abate, anualmente, de 100 mil animais em Portugal nos canis municipais, resultado de compras irrefletidas, de adoções irresponsáveis, de falta de compaixão e de políticas erradas;
2- Porque não é incompatível o envolvimento na causa animal com a adesão a todas as outras. Quem contribui com o seu trabalho voluntário ou monetariamente para a proteção dos animais não está impedido de o fazer para outras causas, como o combate à fome no mundo ou na nossa terra, o apoio aos idosos ou aos sem-abrigo, etc..
3- Porque, como muito bem escreveu Alice Moderno, “Caridade não é apenas a que se exerce de homem para homem: é a que abrange todos os seres da Criação, visto que a sua qualidade de inferiores não lhes tira o direito aos mesmos sentimentos de piedade e de justiça que prodigalizamos aos nossos semelhantes”.
4- Finalmente, porque, como muito bem escreveu Álvaro Múnera, antigo toureiro colombiano que, arrependido, passou a dedicar-se à defesa animal: “os animais vivem um absoluto inferno por culpa do beneficiário de noventa e nove por cento das causas existentes, o ser humano”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2992, 9 de Janeiro de 2014, p.13)
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