21.9.18

Ainda sobre Antero de Quental e os animais


Ainda sobre Antero de Quental e os animais

Sobre Antero de Quental escreve-se muito, mas nem sempre se diz a verdade, acontecendo o extremo de se omitir muitas das suas opiniões ou partes significativas da sua vida, sobretudo as relacionadas com o seu ativismo em prol de uma sociedade mais justa.

Em relação aos animais, já houve um político que o tentou associar aos maus tratos animais que é prática comum na ilha Terceira, escrevendo, sem citar quaisquer fontes, que o mesmo apreciava touradas.

Em texto anterior, já denunciamos a desonestidade que parece quase endémica nos políticos da nossa praça. Neste, damos a conhecer um pequeno escrito de António Arroyo, onde este escreve que Antero de Quental não apreciava a caça e um extrato de um poema da sua autoria.

No livro “A Viagem de Antero de Quental à América do Norte”, António Arroyo relata uma ida à caça do comandante do navio que levou Antero aos Estados Unidos, tendo a propósito escrito o seguinte: “Antero não ia porque detestava tais divertimentos.”

Sobre a relação homem-natureza, haverá algo mais belo e elucidativo do seu pensamento do que o seguinte poema:
Redenção
Vozes do mar, das árvores, do vento!
Quando às vezes, n'um sonho doloroso,
Me embala o vosso canto poderoso,
Eu julgo igual ao meu vosso tormento...

Verbo crepuscular e íntimo alento
Das cousas mudas; salmo misterioso;
Não serás tu, queixume vaporoso,
O suspiro do mundo e o seu lamento?

Um espírito habita a imensidade:
Uma ânsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.

E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha...
Almas irmãs da minha, almas cativas!

Pico da Pedra, 21 de setembro de 2018

30.8.18

Vaca obrigada a beber cerveja


Video:
https://www.facebook.com/611581035901921/videos/231974244141322/


Mas o mesmo acontece na Terceira:



Este é o tipo de cultura apoiada pelo Governo Regional. O Diretor Regional da Agricultura, José Élio Ventura, insulta os açorianos quando afirma que a tourada à corda é "uma atividade cultural que é determinante para a afirmação da identidade e do estado de alma de ser açoriano". Para ele, a alma dos açorianos é isto?

Fonte:
https://iniciativa-de-cidadaos.blogspot.com/

18.7.18

TOURADA DESUMANA E PRETENSAMENTE BENEFICENTE



COMUNICADO
TOURADA DESUMANA E PRETENSAMENTE BENEFICENTE

O Movimento pela Abolição da Tauromaquia de Portugal (MATP) vem por este meio demonstrar o seu desagrado pela realização de uma alegada tourada beneficente, a ter lugar no próximo dia 22 de julho na ilha Terceira, pretensamente para apoiar o “Lar de Idosos da Vila de são Sebastião”.
O MATP considera cínica a atitude de quem promove touradas de “caridade” quando querendo ajudar outrem poderia muito bem organizar qualquer outro tipo de espetáculo, como musical ou cultural, sem maltratar animais e sem ferir igualmente a sensibilidade de todos os humanos que sofrem com a desnecessária dor infligida a outros seres vivos.

Por último, o MATP recorda e subscreve as palavras da professora Vitória Pais Freire de Andrade (1883-1930) que escreveu o seguinte: “E àqueles que nos disserem que as touradas são precisas, porque são uma bela fonte de receita para obras de beneficência, dir-lhe-emos simplesmente o seguinte: que infelizmente, ainda transigimos com o facto de se organizarem festas para delas se tirar recursos para os mais necessitados […] mas que ao menos se junto o útil ao agradável. Que essas festas produzam o pão indispensável para o estômago e a não menos indispensável luz para os espíritos. Que nem uma só ideia reservada presida à sua orientação, sob pena de serem imediatamente desmascarados os seus falsos organizadores. Que uma única divisa se admite: fazer o bem pelo bem.”
Porto e Açores, 15 de julho de 2018

A hipocrisia e o engano das falsas touradas de beneficência



A hipocrisia e o engano das falsas touradas de beneficência

O Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia nos Açores (MCATA) condena a utilização falsa e hipócrita de supostos fins de beneficência para fomentar e tentar lavar a cara ao cruel negócio das touradas na nossa região.

Mais uma vez, a indústria tauromáquica da Terceira anunciou a realização de uma tourada falsamente denominada de beneficência: a chamada “Corrida do Emigrante”, prevista para o dia 22 de julho, que tem como suposta finalidade apoiar o Lar de Idosos da Vila de São Sebastião.

Na realidade, para a indústria tauromáquica qualquer coisa é válida para tentar atrair mais espectadores às praças de touros, mesmo ludibriando as pessoas com apelos aos mais nobres sentimentos da caridade. Para tal basta arranjar a cumplicidade dos dirigentes duma entidade qualquer à qual depois, no melhor dos casos, são entregues umas quantas migalhas dos lucros obtidos.

Umas migalhas ou mesmo nada. Por exemplo, no caso das duas touradas realizadas no passado mês de março em Santarém a favor das vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande, a associação de vítimas desta localidade nem sequer tinha conhecimento da sua realização. E na vizinha Espanha, na cidade de Albacete, uma associação de pessoas portadoras de deficiência não recebeu nem um tostão dos mais de 200 mil euros ganhos na bilheteira da tourada realizada, a seu favor, no passado mês de julho.

Afinal, a preocupação pela entidade beneficiada é quase sempre praticamente nula. Assim ficou demonstrado também na nossa região com a frustrada tourada organizada na Terceira, em 2016, a favor da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC). Perante o anúncio da tourada, a LPCC rapidamente recusou ser utilizada num negócio ao qual era alheia, e no qual o seu bom nome iria ficar publicamente denegrido. Como era de esperar, esta recusa gerou uma enorme indignação entre os organizadores da tourada, que a toda a pressa tiveram de procurar uma outra entidade que servisse de desculpa para a sua pretensa beneficência. A realização da tourada à margem da finalidade que era supostamente a sua razão de ser demonstrou que o verdadeiro interesse era a promoção da tauromaquia e não a ajuda a qualquer instituição.

Não temos dúvidas de que se qualquer pessoa de bom coração deseja contribuir para uma determinada entidade de solidariedade social, o melhor que pode fazer é dar directamente o seu dinheiro a essa entidade. Não precisa de modo nenhum, para isso, de financiar a indústria tauromáquica da ilha Terceira, que no caso da próxima tourada até pretende trazer toureiros do continente, com todos os elevados custos associados à sua deslocação, montante de dinheiro que seria muito mais útil se fosse entregue à suposta entidade beneficiada.

Benefício não é beneficência. E a autêntica beneficência, etimologicamente “fazer o bem”, nunca poderá ter nada a ver com o abuso, maltrato e tortura de seres inocentes nem com o fomento do negócio caduco, sangrento e retrógrado das touradas.



Comunicado do
Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia nos Açores (MCATA)
17/07/2018


23.6.18

Angra do Heroísmo: dinheiro público para financiar os caprichos da indústria tauromáquica

Angra do Heroísmo: dinheiro público para financiar os caprichos da indústria tauromáquica

O Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia nos Açores (MCATA) condena o contínuo uso de dinheiro público por parte da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo e de outras instituições públicas para financiar projectos de carácter muito questionável destinados unicamente a louvar e glorificar a indústria tauromáquica local.

O último projecto a servir de sorvedouro de dinheiro público será inaugurado no próximo dia 24 de junho: um “Monumento ao forcado”, da autoria do terceirense José João Dutra, com um custo total de 65 mil euros. Deste valor, a pedido do grupo de forcados da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, a Câmara Municipal vai contribuir com metade, 32,5 mil euros, para além da cedência de mão de obra de trabalhadores camarários para a instalação do monumento. Segundo o autarca de Angra do Heroísmo, Álamo Meneses, o desvio de dinheiro público para financiar esta nova frivolidade da indústria tauromáquica é um acto exemplar de parceria entre sociedade civil e poderes públicos que vai proporcionar "mais um marco de interesse na nossa cidade”.


Acontece que, apenas sete anos atrás, na cidade de Angra do Heroísmo inaugurou-se já um outro “Monumento ao toiro bravo”, da autoria do terceirense Renato Costa e Silva, considerado como o maior monumento do mundo dedicado ao touro, com onze metros de altura. Com um custo de 150 mil euros, o monumento foi financiado integramente pelo Governo Regional, ficando desde então a Câmara Municipal com todos os custos decorrentes da sua manutenção.

A este grande e frutífero negócio dos monumentos tauromáquicos que parece existir na cidade de Angra do Heroísmo é preciso acrescentar, por exemplo, que a Câmara Municipal entregou, há três anos, 200 mil euros à Sociedade Tauromáquica Progresso Terceirense com a doação do terreno onde está instalada a actual praça de touros. E também que, nos últimos anos, a autarquia tem financiado com 100 mil euros anuais a Feira Taurina de São João.

Sobre este assunto, uma recente petição na plataforma Change.org que pedia para acabar com o financiamento público das touradas em Angra do Heroísmo, reunindo um total de 2.589 assinaturas, denunciava que, em cinco anos, a autarquia tinha gasto nada menos que um milhão e trezentos mil euros na indústria tauromáquica.

Até quando o dinheiro público vai continuar a financiar a mãos cheias o negócio da tortura animal e, ainda, os grandes monumentos e demais caprichos da indústria tauromáquica terceirense?


Comunicado do
Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia nos Açores (MCATA)
20/06/2018



6.4.18

Antero de Quental e os animais

Antero de Quental e os animais

Muito se tem escrito sobre Antero de Quental, um dos maiores açorianos de todos os tempos, algumas vezes sem ter lido os seus escritos ou a vasta bibliografia que sobre ele já se publicou.

Há algum tempo, houve, até, quem tivesse o descaramento de, para defender a indefensável tortura de bovinos, escrevesse, sem qualquer fundamento, que Antero de Quental ia à Terceira para ver touradas.

Na minha incessante procura de melhor conhecer o açoriano discípulo do filósofo francês Pierre-Joseph Proudhon, deparei-me com uma informação preciosa que ilustra bem o pensamento e ação de Antero de Quental em relação aos animais, a qual pode ser consultada no livro “Antero de Quental, subsídios para a sua biografia”, volume II, da autoria de José Bruno Carreiro.

Depois de relatar o excelente relacionamento de Antero de Quental com as crianças, Luís de Magalhães, sobre a sua relação com os animais escreveu o seguinte:

“Noutra ocasião fui dar com ele a prodigalizar os maiores cuidados a um pobre passarinho implume, a que dera por homenagem a sua mesa de jantar e que, por sua mão, alimentava com sopas de leite. O pássaro, já familiarizado, voltava-se para ele de biquito aberto, como se pedisse de comer à própria mãe…O que transformara o poeta num criador de passarinhos? Fora isto: arrebatara aquele pássaro das mãos de uns garotos que o torturavam. E como ele ainda não voasse, estava-o criando para depois lhe dar a liberdade. E contou.me que já mais vezes assim fizera a outras avezitas, por ele libertas das garras do rapazio. Dizei-me se não há nisto um traço profundo da bondade do Poverello, do seu amor pelos animais, que como criaturas de Deus, ele considerava seus irmãos.”

Termino com um extrato de uma carta que dirigiu, em 1889, ao poeta e ensaísta Jaime Magalhães Lima :

“Ninguém salvo os monstros, está fora da humanidade, e os mais perfeitos, longe de condenarem os menos perfeitos, verão neles ao menos a possibilidade de perfeição, como nós vemos aos animais uma espécie de rudimento da humanidade, e , sem nos confundirmos com eles, não nos sentimos todavia absolutamente distintos deles, antes a eles nos sentimos ligados por uma íntima piedade.”

Teófilo Braga
6 de abril de 2018